Um ensaio de João Serra compara a estratégia chinesa de investimento em infraestruturas com o desempenho cabo-verdiano e identifica fragilidades estruturais que travam o desenvolvimento do arquipélago. A China usou portos, aeroportos e redes de transporte e digitais para integrar mercados e reduzir custos; em Cabo Verde, por outro lado, políticas públicas têm privilegiado obras visíveis e de curto prazo, financiadas por endividamento elevado e, por vezes, resultando em infraestruturas subutilizadas. O autor aponta como problemas centrais a falta de um planeamento integrado, modelos de gestão ineficazes para transportes interilhas e a excessiva partidarização da administração pública, que condiciona a participação cívica, a meritocracia e a capacidade de negociação internacional. Serra defende uma leitura seletiva da experiência chinesa para inspirar reformas — designadamente despartidarização da administração, investimento em capacitação e políticas externas mais assertivas — mas alerta para os limites de transposição mecânica entre realidades tão distintas.